“Um vazio surpreendente: a história oficial ignora o futebol.” Os textos de história contemporânea não o mencionam, nem sequer de passagem, em países onde o futebol foi e continua sendo um símbolo primordial de identidade coletiva. Jogo, logo existo: um estilo de jogo é uma forma de ser que revela o perfil único de cada comunidade e afirma seu direito de ser diferente. “Diga-me como você joga e eu direi quem você é.”
Assim escreveu Eduardo Galeano, o lendário autor e jornalista uruguaio. Durante grande parte da história do futebol, ele estava certo. As seleções nacionais tinham uma identidade clara em seu estilo de jogo.
Isso é menos verdadeiro hoje em dia: devido à globalização, as formas de entender o futebol tornaram-se cada vez mais homogêneas. Ainda assim, essas maneiras nacionais de conceber o jogo continuam existindo, pelo menos em certa medida.
Na primeira parte deste artigo, exploramos cinco culturas futebolísticas de diferentes partes do mundo. Além de descrever o estilo de jogo associado a cada país, avaliamos até que ponto o estereótipo corresponde à realidade.
O Estilo Samba no Futebol
Antes da Copa do Mundo de 1998, a Nike lançou um comercial estrelado por vários membros da seleção brasileira. Mostrava Ronaldo, Romário, Roberto Carlos, Denílson e Juninho fazendo dribles e malabarismos dentro de um aeroporto.
O anúncio ajudou a consolidar a reputação do Brasil como um grupo de jogadores despreocupados para quem o joga bonito era o mais importante. Segundo o mito, o Brasil joga há muito tempo um estilo que reflete a samba — dança enérgica e rítmica das praias do Rio de Janeiro e além.
De fato, o Brasil produziu inúmeros jogadores extraordinários: Garrincha, Zico, Ronaldinho, Neymar. Em 1970, a equipe liderada por Pelé venceu a Copa do Mundo com um futebol hipnotizante. Doze anos depois, não conquistou o título, mas encantou o mundo com seu jogo ofensivo e fluido.
“A beleza vem primeiro. A vitória é secundária. O que importa é a alegria”, disse Sócrates, integrante do time de 1982 eliminado pela Itália. Seu companheiro Zico descreveu a derrota por 3 a 2 como “o dia em que o futebol morreu”.
No entanto, o estereótipo vai longe demais. Não se vencem cinco Copas do Mundo — um recorde — apenas jogando de forma displicente. O pioneirismo brasileiro em tática e preparação física muitas vezes é ignorado por causa da imagem artística da Seleção.
Em 1958, além de contar com Pelé aos 17 anos e craques como Didi, Garrincha, Djalma Santos, Nilton Santos e Zagallo, o Brasil inovou ao utilizar uma linha defensiva de quatro jogadores. Levou à Suécia um massagista, um psicólogo esportivo e até um dentista — preparação inédita na época.
Também vale destacar que a maioria dos torcedores brasileiros prefere vencer jogando feio a perder jogando bonito. A equipe pragmática de 1994 foi pouco criticada porque conquistou o título. Já a talentosa geração de 2006 foi duramente questionada após a eliminação nas quartas de final.
O Catenaccio e a Defesa Italiana
Na arte, na moda, na música e na gastronomia, o estilo é essencial na forma italiana de fazer as coisas. A dolce vita representa esse ideal de beleza e prazer.
Mas isso não se aplica totalmente ao futebol. Nesse campo, os italianos estão dispostos a sacrificar o estilo pela eficiência. “Vencer não é o mais importante — é a única coisa que importa”, diz o lema da Juventus.
Muitos atribuem essa mentalidade ao jornalista Gianni Brera, que se tornou editor-chefe da La Gazzetta dello Sport em 1949. Conta-se que ele definiu um 0 a 0 como “o jogo perfeito”.
O melhor exemplo é o catenaccio (“ferrolho”). Criado por Karl Rappan e popularizado por Helenio Herrera na Inter de Milão, que conquistou três títulos da Serie A e duas Copas da Europa com esse sistema. O time atuava com marcação individual e um líbero atrás da defesa, recuava e explorava contra-ataques rápidos.
Embora a Itália tenha produzido grandes atacantes como Meazza, Riva, Baggio e Totti, seus dois maiores ídolos históricos podem ter sido defensores: Paolo Maldini e Franco Baresi.
Mesmo após a influência mais ofensiva de Arrigo Sacchi, a Itália continua reconhecida por sua obsessão tática. Como disse Rafael Benítez ao assumir o Napoli em 2013: “Em 20 minutos aqui me fizeram mais perguntas táticas do que em um ano inteiro na Inglaterra.”
Holanda: Futebol Total
O mundo parecia torcer pela Holanda na final da Copa de 1974 contra a Alemanha Ocidental. Com Johan Cruyff, Neeskens e Rep, a equipe encantou com o Futebol Total — sistema em que jogadores trocavam constantemente de posição.
Embora inspirado por ideias anteriores da Áustria e Hungria, foi Rinus Michels quem levou o conceito ao auge no Ajax e na seleção holandesa. O Ajax conquistou três Copas da Europa no início dos anos 70.
O Futebol Total consistia no domínio do espaço: todas as posições precisavam estar ocupadas, independentemente de quem as ocupasse. Baseava-se no 4-3-3, linha alta, pressão intensa e pontas abertos.
Diferentemente do Brasil, muitos torcedores holandeses resistem a abandonar esse estilo, mesmo com bons resultados. A equipe pragmática que chegou à final de 2010 foi criticada por Cruyff como “antifutebol”.
Inglaterra: Jogo Direto
Hoje os ingleses estão acostumados a ver seus times saindo jogando desde a defesa, mas historicamente o estilo foi direto e vertical.
O futebol inglês sempre foi mais físico, com arbitragem mais permissiva e valorização de disputas aéreas. O clima chuvoso e os campos lamacentos também incentivavam cruzamentos e bolas longas pelas laterais.
Charles Reep, pioneiro da análise de dados, defendeu que a maioria dos gols vinha de jogadas com até três passes — tese que influenciou treinadores e consolidou o estilo direto.
Por muito tempo, o 4-4-2 com um centroavante forte foi padrão. Hoje, porém, jogadores como Phil Foden, Trent Alexander-Arnold e Jude Bellingham mostram que a Inglaterra também produz talentos altamente técnicos.
Uruguai: Garra Charrua
O Uruguai é talvez o país que mais surpreendeu no futebol internacional. Campeão mundial em 1930 e 1950, soma 15 títulos da Copa América.
Seu sucesso inicial veio de uma geração dourada nas décadas de 1910 e 1920, além da decisão de escalar equipes multirraciais.
Apesar do tamanho reduzido, o país continua revelando talentos: Andrade, Schiaffino, Francescoli, Forlán, Suárez, Valverde.
O que une tudo isso é a garra charrua, termo ligado ao povo indígena Charrua. No futebol, significa coragem, tenacidade e astúcia.
“É uma forma de viver o futebol. É como todos os uruguaios crescemos. É como jogamos nos nossos bairros”, explicou Lucas Torreira. “A garra charrua está dentro de cada uruguaio.”
