A ascensão do futebol feminino: história, evolução e futuro

O futebol feminino passou de proibições e barreiras históricas a um fenômeno global, com estádios lotados e recordes de audiência. Hoje, existem ligas profissionais em vários países, a Champions League feminina cresce a cada ano e as receitas superam cifras milionárias. Embora persistam desafios como a desigualdade salarial e a falta de investimento, o futuro do futebol feminino aponta para um desenvolvimento imparável.
Aitana Bonmatí e Georgia Stanway na final da Eurocopa Feminina 2025.
Aitana Bonmatí (Espanha) durante a final da Eurocopa Feminina 2025 da UEFA entre Inglaterra e Espanha, no estádio St. Jakob-Park em Basileia, Suíça. (Crédito da imagem: Adil Benayache / SIPA / Shutterstock - 15418447x / TT)

O futebol feminino cresceu enormemente nos últimos anos e ainda há muito para desenvolver. Durante muito tempo, as jogadoras estiveram marginalizadas no esporte mais popular do mundo, e o futebol feminino teve que superar muitas barreiras para chegar à posição que ocupa hoje.

Neste artigo, aprofundaremos no futebol feminino, analisaremos a história do jogo e celebraremos seu avanço até agora. No entanto, ainda restam desafios, e analisaremos alguns deles ao final deste texto.

Os primeiros anos do futebol feminino

O futebol tem várias histórias de origem, mas é um fato conhecido que o esporte foi codificado na Grã-Bretanha na década de 1860. A Football Association (FA) foi formada em um pub de Londres, e as Regras do Jogo foram criadas pouco depois. Este foi um momento transcendental que deu origem ao colosso global atual.

Naquela época, porém, assumia-se simplesmente que os homens eram os únicos participantes possíveis. Não existiam provisões para o jogo feminino porque atitudes conservadoras e retrógradas contribuíam para a ideia de que o futebol era para homens e apenas para homens. Isso ocorreu apesar da evidência de que mulheres jogavam algo similar ao futebol já no ano 25 d.C.

Contudo, houve alguns avanços nas décadas seguintes. Acredita-se que a primeira partida feminina oficial foi realizada na Escócia, em 1892. Três anos depois, ocorreu um jogo organizado para mulheres na Inglaterra.

Naquele país, o futebol feminino realmente se tornou popular durante a Primeira Guerra Mundial. Como muitos jovens estavam longe, nos campos de batalha, as mulheres os substituíram nos gramados. O Dick, Kerr Ladies, clube fundado em 1917, foi particularmente influente. Seus jogos atraíam até 53.000 torcedores em seu auge, provando o interesse genuíno pelo esporte.

Em 1920, o Dick, Kerr Ladies enfrentou uma equipe francesa no que pode ter sido o primeiro grande encontro internacional feminino. Mas logo surgiu um obstáculo: para os dirigentes (exclusivamente masculinos) da FA, o futebol feminino estava se tornando popular demais.

O futebol feminino foi proibido na Inglaterra em 1921, quando a FA decretou que o jogo era inerentemente masculino e impróprio para mulheres. Em diferentes momentos, o jogo também foi proibido em outros países, incluindo França, Espanha, União Soviética e Alemanha Ocidental.

Não foi apenas na Europa: países como Nigéria e Brasil também negaram às mulheres o direito de jogar. No Brasil, autoridades decretaram que o esporte era "incompatível com as condições de sua natureza (feminina)". Sem essas proibições generalizadas, quem sabe onde o futebol feminino estaria agora.

Renascimento e avanço: de 1970 a 2010

No final dos anos 1960 e na década de 1970, a política de negar às mulheres o direito de jogar não era mais sustentável. Na Inglaterra, a Associação de Futebol Feminino nasceu em 1969. Quase ao mesmo tempo, ligas femininas foram criadas em outros países, com a Itália liderando o caminho em 1968.

O primeiro grande marco no ressurgimento foi a organização de duas Copas do Mundo não oficiais em 1970 e 1971. Ambos os eventos foram um sucesso, apesar de não terem o apoio da FIFA. Na final de 1971, no México, incríveis 110.000 torcedores se reuniram no icônico Estádio Azteca para ver a Dinamarca vencer o México por 3 a 0.

A FIFA finalmente interveio em 1988 com um torneio experimental na China. Três anos depois, a China sediou a primeira Copa do Mundo Feminina oficial, vencida pelos Estados Unidos diante de 63.000 torcedores. Desde então, o Mundial ocorre a cada quatro anos, com os EUA sendo os maiores vencedores (4 títulos), seguidos por Alemanha (2), Noruega, Japão e Espanha (1 cada).

Em 1996, o futebol feminino foi incluído nos Jogos Olímpicos. Diferente do masculino, o torneio olímpico feminino não possui restrição de idade, permitindo que as seleções levem suas forças máximas.

O futebol feminino na atualidade

O futebol feminino nunca foi tão grande. Atualmente, existem ligas profissionais sólidas nos EUA, Inglaterra, Austrália, França, Espanha e Suécia. A UEFA Women’s Champions League é hoje um dos eventos mais aguardados da Europa. Na final de 2024, em Bilbau, mais de 50.000 pessoas viram o Barcelona ser campeão.

Recordes de público tornaram-se comuns: 91.648 espectadores viram o Barcelona vencer o Wolfsburg no Camp Nou em 2022. Financeiramente, o crescimento é nítido. Segundo a Deloitte, estima-se que o futebol feminino gere receitas globais de 500 milhões de euros em 2024.

A Copa do Mundo de 2023 contou com 32 seleções, refletindo a expansão para países como Marrocos, Zâmbia, Haiti e Filipinas.

O futuro do futebol feminino

Para onde vamos agora? O futebol feminino cresce rápido, mas ainda enfrenta desafios. As jogadoras recebem salários significativamente menores que os homens e alguns clubes grandes demoraram a investir — o Manchester United, por exemplo, só reativou sua equipe feminina em 2018.

A misoginia, embora menos predominante, ainda não foi erradicada. Problemas de saúde também preocupam: pesquisas mostram que mulheres têm oito vezes mais chances de sofrer lesões no ligamento cruzado anterior (LCA) do que homens. Isso se deve a fatores biológicos, mas também à falta de equipamentos desenhados especificamente para a anatomia feminina (como chuteiras) e à carência de estudos médicos focados no corpo da mulher atleta.

Em termos gerais, o progresso das últimas três décadas é amplamente positivo. O futebol feminino ainda tem obstáculos, mas sua trajetória é de um desenvolvimento imparável.