A Premier League é a competição nacional de futebol mais popular do planeta. Seus 380 jogos por temporada são disputados na Inglaterra, mas a elite do país é, em muitos aspectos, uma liga mundial.
Por exemplo, um treinador inglês nunca venceu o título da Premier League (embora Alex Ferguson, um escocês, tenha erguido o troféu 13 vezes). Todas as 20 equipes da divisão possuem elencos e comissões técnicas multinacionais. No entanto, nem sempre foi assim. Neste artigo, analisamos a ascensão dos jogadores estrangeiros na Premier League e examinamos o impacto e a influência que eles exerceram.
Os primeiros anos
A Premier League foi fundada em 1992, após os clubes da Primeira Divisão optarem por se separar da Football League. Foi o início de uma nova era, na qual a liga negociou seus próprios acordos de TV e direitos comerciais. A Sky Sports fechou um contrato lucrativo para transmitir jogos ao vivo semanalmente, algo inédito até então.
Embora houvesse mais brilho e glamour associados à elite inglesa a partir da temporada 1992/93, levou tempo para que o produto em campo sofresse mudanças substanciais. Na verdade, a primeira temporada foi um assunto predominantemente britânico e irlandês. Cada um dos 25 treinadores que comandaram ao menos uma partida naquela campanha era da Inglaterra, Escócia, País de Gales ou da República da Irlanda.
Em toda a divisão, havia apenas 13 jogadores estrangeiros: Eric Cantona (Leeds/Man. United), Gunnar Halle (Oldham), John Jensen (Arsenal), Andrei Kanchelskis (Man. United), Anders Limpar (Arsenal), Roland Nilsson (Sheffield Wednesday), Ronnie Rosenthal (Liverpool), Peter Schmeichel (Man. United), Hans Segers (Wimbledon), Jan Stejskal (QPR), Robert Warzycha (Everton) e Michel Vonk (Man. City).
Desses nomes, dois se destacam: Cantona e Schmeichel. Ambos foram fundamentais para o sucesso do Manchester United. Cantona, em particular, rompeu com o estereótipo do jogador na Inglaterra; ele era inconfundivelmente francês e tornou-se a primeira superestrela estrangeira da liga.
Por que tão poucos no início?
Existem várias razões. O futebol inglês enfrentou muitos problemas na década de 1980, incluindo o vandalismo (hooliganismo). Para muitos, a liga não era um destino desejável. Além disso, a Serie A italiana era, na época, o destino preferido dos melhores talentos mundiais.
As regras da UEFA e da FIFA também pesavam. Até 1996, os clubes só podiam escalar três estrangeiros em competições europeias, o que incentivava a compra de britânicos. Apenas com a Lei Bosman, em 1995, é que o mercado se abriu totalmente, permitindo que jogadores se transferissem sem custos ao final de seus contratos.
Lento, mas constante
Em 1993, comentaristas ainda se surpreendiam com a "forte influência europeia" ao ver apenas dois estrangeiros na escalação do Chelsea. Seis anos depois, em 1999, o mesmo clube escalou o primeiro XI totalmente estrangeiro da história da liga, sob o comando de Gianluca Vialli.
O Arsenal de Arsène Wenger também foi pioneiro, buscando talentos na França (Vieira, Henry, Pires) e em outros mercados globais. Em 2005, os Gunners escalaram um time inteiramente estrangeiro. No final da década de 2000, ficou claro que a Premier League não era mais um reduto apenas para britânicos.
Até 2024, atletas de 116 países diferentes já passaram pela liga, incluindo representantes de nações sem tradição no futebol, como Burundi, Tanzânia e Ilhas Faroé.
Impacto e influência
A chegada de estrangeiros elevou drasticamente a qualidade técnica. Se em 1992 os clubes olhavam apenas para o Reino Unido e Irlanda, hoje monitoram do Brasil às Bahamas. Treinadores como Mourinho, Guardiola e Klopp também revolucionaram o jogo, mas os jogadores mudaram a forma como as posições são interpretadas:
- Eric Cantona: Introduziu a função do "camisa 10" ou segundo atacante que flutua entre as linhas, algo que as defesas inglesas não sabiam como marcar.
- Thierry Henry: Redefiniu o papel do centroavante ao cair pelas pontas e cortar para dentro, causando estragos nas táticas tradicionais.
- Claude Makélélé: Criou o "papel Makélélé", um volante de contenção puro à frente da defesa, em uma liga acostumada com meio-campistas box-to-box.
- Goleiros Modernos: Van der Sar, Alisson e Ederson mudaram a percepção da posição, mostrando que o goleiro deve ser o primeiro construtor de jogadas com os pés.
O que o futuro reserva?
Embora a liga seja globalizada em todos os níveis — de donos a árbitros —, ainda existe um núcleo inglês preservado pelas categorias de base e por estrelas como Bukayo Saka e Jude Bellingham (que, embora jogue fora, é fruto desse sistema). O futebol da Premier League ainda é mais físico e direto que o da La Liga, mantendo sua herança cultural.
A Premier League não pertence mais exclusivamente à Inglaterra em termos de talento, mas sua alma e a paixão de seus torcedores locais continuam sendo o que a mantém como o maior espetáculo da Terra.
