“Um vazio assombroso: a história oficial ignora o futebol.” Os textos de história contemporânea não o mencionam, nem sequer de passagem, em países onde o futebol foi e continua sendo um símbolo primordial de identidade coletiva. Jogo, logo existo: um estilo de jogo é uma forma de ser que revela o perfil único de cada comunidade e afirma seu direito de ser diferente. “Diga-me como jogas e eu te direi quem és.”
Assim escreveu Eduardo Galeano, o lendário autor e jornalista uruguaio. Durante grande parte da história do futebol, ele tinha razão. As seleções nacionais possuíam uma identidade distintiva em relação ao seu estilo de jogo.
Hoje isso é menos verdadeiro: devido à globalização, as formas de entender o futebol tornaram-se cada vez mais homogêneas. No entanto, essas maneiras nacionais de conceber o jogo ainda existem, ao menos em certa medida.
Na segunda parte deste artigo exploramos outras cinco culturas futebolísticas ao redor do mundo. Além de descrever o estilo de jogo associado a cada país, avaliamos até que ponto o estereótipo corresponde à realidade.
Espanha: Tiki-Taka
O futebol de posse nem sempre foi o ponto forte da Espanha. O apelido da seleção, La Furia Roja (“A Fúria Vermelha”), fazia referência a qualidades anteriores como força física e robustez. Durante décadas, a Espanha também foi uma das equipes com piores resultados: antes do fim dos anos 2000, contava apenas com uma Eurocopa (vencida em casa, em 1964) e nenhum título mundial.
As coisas começaram a mudar gradualmente nas décadas de 1980 e 1990, quando o Barcelona passou a se inspirar no pensamento holandês. Rinus Michels, arquiteto do Futebol Total, já havia tido duas passagens pelo Camp Nou, mas foi Johan Cruyff quem realmente implementou essas novas ideias durante sua etapa como treinador.
Em meados dos anos 2000, a Espanha passou a revelar uma abundância de meio-campistas fisicamente magros, porém tecnicamente excelentes. O técnico do título da Eurocopa de 2008 foi Luis Aragonés, anteriormente conhecido por sua abordagem mais direta. Ainda assim, construiu a equipe em torno de Xavi Hernández, que carecia de grande capacidade atlética, mas era um mestre no controle do jogo. A posse de bola tornou-se a prioridade.
No âmbito dos clubes, Pep Guardiola levou o estilo a novos patamares entre 2008 e 2012, quando o Barcelona dominou tudo, tanto nacional quanto internacionalmente. O termo “tiki-taka” foi cunhado para descrever os passes curtos, precisos e quase circulares do Barça, embora Guardiola não apreciasse o rótulo.
A Espanha venceu a Copa do Mundo de 2010 e a Eurocopa de 2012, conquistando três grandes torneios consecutivos. Vicente del Bosque comandou as duas últimas conquistas, e a equipe tornou-se cada vez mais obcecada pela posse de bola com o passar do tempo.
Na Eurocopa de 2012, Del Bosque escalou um time inicial com seis meio-campistas técnicos: Xavi, Xabi Alonso, Sergio Busquets, Cesc Fàbregas, David Silva e Andrés Iniesta — nenhum deles conhecido por velocidade ou força física. Para a Espanha, o fundamental era o controle da bola.
Nos últimos anos, a equipe manteve estilo semelhante, embora com bem menos sucesso. De fato, a Espanha continua forte no meio-campo, mas em torneios recentes foi prejudicada por deficiências nas duas áreas.
Argentina: A Nossa vs. Antifutebol
Poucos países no mundo são tão apaixonados por futebol quanto a Argentina. Os torcedores vivem e respiram o esporte, enquanto a rivalidade entre Boca Juniors e River Plate é talvez a mais emblemática do planeta.
Há muito tempo existe um romantismo associado ao futebol argentino, que também se reflete dentro de campo. O país produziu três dos maiores jogadores de todos os tempos — Lionel Messi, Diego Maradona e Alfredo Di Stéfano — todos atacantes.
Entretanto, a identidade futebolística argentina sempre oscilou entre dois enfoques opostos. O jogo ofensivo floresceu nas décadas de 1930 e 1940, quando o estilo nacional ficou conhecido como “la nuestra” — “a nossa maneira”. Celebrava-se o talento individual e preferia-se que as equipes se estruturassem a partir da criatividade dos jogadores, e não de um rígido sistema tático.
Uma humilhante derrota por 6 a 1 diante da Tchecoslováquia na Copa do Mundo de 1958 levou a uma reformulação. A Argentina emergiu com maior ênfase no físico, na organização e no pragmatismo. Essa nova abordagem ganhou o apelido de “antifutebol”.
Até relativamente pouco tempo, essa era a dicotomia que atravessava o futebol argentino, com a seleção e os clubes alternando entre as duas vertentes.
Esses enfoques opostos são melhor representados por César Luis Menotti e Carlos Bilardo. Ambos conquistaram a Copa do Mundo, em 1978 e 1986, respectivamente, mas com métodos muito distintos. Menotti, boêmio e romântico, incentivava a autoexpressão em campo. Bilardo, pragmático e obcecado pela vitória, exigia que seus jogadores se encaixassem em um sistema e seguissem um plano tático rigoroso.
Também há jogadores que encarnam esses estilos. Juan Román Riquelme e Pablo Aimar, herdeiros de “la nuestra”, eram clássicos camisas 10 argentinos: não corriam muito, mas compensavam com talento técnico extraordinário. Ao mesmo tempo, em consonância com sua tradição mais pragmática, a Argentina também é conhecida por defensores e volantes combativos, agressivos e de marcação firme.
Alemanha: Eficiência funcional
“O futebol é um jogo simples”, comentou certa vez o atacante inglês Gary Lineker. “Vinte e dois homens correm atrás de uma bola por 90 minutos e, no final, os alemães sempre ganham.”
A frase ainda provoca risos cúmplices. Com razão ou não, o futebol alemão não evoca necessariamente imagens de jogo bonito e fluido, tampouco de futebol excessivamente defensivo. Quando se pensa na Alemanha, muitos imaginam apenas o capitão erguendo o troféu ao fim de um grande torneio.
O país teve, de fato, enorme sucesso: conquistou quatro Copas do Mundo (apenas o Brasil tem mais) e três Campeonatos Europeus. A Alemanha nem sempre foi a melhor equipe nesses sete títulos, mas em todas as ocasiões fez o necessário para sair vencedora.
Se buscarmos um estilo mais definido, provavelmente mencionaríamos a força física e a verticalidade. As melhores equipes alemãs — e até as medianas — costumam ser muito atléticas e bem preparadas fisicamente, capazes de superar a maioria dos adversários. Geralmente há objetividade no jogo e ênfase em avançar com a bola sem excessiva elaboração.
Há também a eficiência — um estereótipo que vai muito além do futebol. Em campo, o lendário artilheiro Gerd Müller foi o melhor exemplo disso. Marcou impressionantes 68 gols em 62 partidas pela Alemanha Ocidental, podendo passar despercebido por longos períodos antes de surgir decisivamente.
Ainda assim, a ideia de funcionalidade alemã pode ser exagerada. A seleção teve atuações muito boas na Copa de 1974, embora isso seja menos lembrado porque venceu uma seleção holandesa ainda mais vistosa na final. Um jogador como Franz Beckenbauer, técnico e inovador, não se encaixa facilmente no estereótipo — e é considerado o maior jogador alemão de todos os tempos.
Além disso, a seleção nem sempre foi dominante recentemente, sendo eliminada ainda na fase de grupos das Copas do Mundo de 2018 e 2022.
França: Futebol champanhe
A identidade futebolística francesa nunca foi tão claramente definida quanto a de vizinhos europeus como Alemanha, Itália ou Inglaterra.
Talvez o primeiro grande indício de uma identidade distinta remonte ao Stade de Reims de Albert Batteux nos anos 1950. Em uma carreira brilhante, Batteux conquistou nove títulos da Ligue 1 com três clubes diferentes, cinco deles com o Reims, que também levou a duas finais da Copa dos Campeões.
A equipe praticava o chamado “futebol champanhe”. Just Fontaine, lendário atacante francês, explicou que o estilo ofensivo era “baseado em tabelas e na busca constante por espaços”.
Em nível internacional, o mundo apreciou a França na Copa de 1982. O ponto central daquela equipe era o “Quadrado Mágico”, formado por quatro meio-campistas tecnicamente brilhantes: Luis Fernández, Alain Giresse, Jean Tigana e Michel Platini. Esse quarteto, especialmente Platini, ajudou a França a vencer a Eurocopa de 1984 em casa, embora críticas apontassem suposta falta de firmeza em competições fora do país.
A era dourada veio cerca de 15 anos depois, com a conquista da Copa do Mundo de 1998 e da Eurocopa de 2000. Em ambos os torneios, a França apresentou melhor equilíbrio. Não faltava qualidade ofensiva, com Zinedine Zidane como figura central, mas jogadores como Didier Deschamps adicionaram solidez ao estilo.
Posteriormente, Deschamps tornou-se técnico da seleção e levou a França ao título mundial em 2018. Ao longo de seu trabalho, a equipe combinou talento individual com pragmatismo tático, talvez substituindo o antigo conceito de futebol champanhe.
Chile: Alta intensidade
Por fim, analisamos uma identidade nacional construída há relativamente pouco tempo, refletindo sobre se esses estilos conseguem sobreviver no mundo moderno e globalizado.
Antes da nomeação de Marcelo Bielsa como técnico da seleção em 2007, o Chile não tinha uma forma claramente definida de jogar. Junto com Equador e Venezuela, era uma das poucas seleções sul-americanas que nunca haviam vencido a Copa América.
Bielsa pouco alterou seus princípios ao longo de 35 anos de carreira. Seu famoso dogmatismo gerou dificuldades quando treinou a Argentina, que já possuía tradições muito enraizadas.
No Chile, encontrou terreno fértil. Rapidamente implementou um futebol rápido e vertical, baseado em pressão alta, combinações rápidas e sobrecarga pelas laterais.
Seu modelo encaixou-se perfeitamente em uma geração talentosa que incluía Alexis Sánchez, Mauricio Isla, Arturo Vidal, Gary Medel, Claudio Bravo, Charles Aránguiz e Jorge Valdivia.
Bielsa saiu em 2011, mas sua obra foi continuada por Jorge Sampaoli. O Chile conquistou duas Copas América consecutivas, em 2015 e 2016, jogando um futebol agressivo, intenso e dinâmico herdado de Bielsa.
Entretanto, o sucesso não se manteve nos anos seguintes, e a seleção sequer se classificou para as Copas do Mundo de 2018 e 2022. Muitos integrantes daquela geração dourada já ultrapassaram os 30 anos, evidenciando a falta de renovação.
Isso levanta uma questão interessante: o Chile continuará fiel ao modelo promovido por Bielsa e Sampaoli após a completa renovação do elenco? Em outras palavras, esse estilo tornou-se realmente chileno ou foi apenas uma adaptação às qualidades de uma geração excepcional?
Só o tempo dirá.
